Estamos em fevereiro, ainda é verão, e o tempo está bom para a praia. No entanto, uma olhada rápida para a orla de Balneário Camboriú por volta das 21h revela poucas luzes acessas – a maioria dos imóveis está fechada. Nem mesmo no Réveillon, quando a cidade recebe o maior número de turistas, todos os apartamentos estão ocupados.
Estima-se que 60% dos imóveis de Balneário permaneçam vazios a maior parte do ano. Considerados apenas os apartamentos de alto luxo, no entanto, a taxa de ocupação é ainda menor.
Tantos milhões gastos em imóveis vazios, é claro, geram muita especulação. Uma delas é a de que apartamentos de luxo também atraiam gente que quer lavar dinheiro obtido ilegalmente.
No mercado o assunto é tabu e não se admite que isso aconteça. No entanto, a Polícia Federal inclui com frequência apartamentos milionários de Balneário Camboriú em investigações de lavagem de dinheiro. Segundo o delegado Thiago Gioavarotti, são geralmente decorrentes de operações que apuram crimes contra a ordem financeira, tráfico de drogas, contrabando e crime organizado.
Em geral, são imóveis que estão em nome de outras pessoas, os “laranjas”, para não serem detectados pelo fisco e pela polícia. A “casa cai”, no entanto, quando o dono não consegue justificar a aquisição de um apartamento tão caro.
Nesses casos, o bem é sequestrado, ou seja, fica indisponível até o fim das investigações. Quando é comprovado que foi obtido de maneira ilícita, o apartamento é alienado e o dinheiro arrecadado geralmente acaba ressarcindo os prejuízos causados, principalmente para pagar impostos sonegados.
– Acontece bastante, não só com imóveis mas também com carros de luxo – diz o delegado.
O plano diretor de Balneário Camboriú não estabelece limites de altura. Assim, não há limites também para os projetos megalomaníacos. Ao longo dos anos, a falta de regramento levou os edifícios mais altos cada vez mais perto da praia e resultou na imensa sombra que se projeta sobre o mar e a faixa de areia antes das 16h. Não raro, turistas “se espremem” nas réstias de sol que aparecem entre um prédio e outro.
A sombra não atrapalha apenas o bronzeado. Adriano Marenzi, pós-doutor em aquacultura, diz que a falta de sol, especialmente no fim da tarde, interfere na vida marinha. Atrapalha o ciclo de vida de animaizinhos bem conhecidos de quem frequenta as praias, como tatuíras, mariscos, caramujos e siris. Todos eles, raros de se ver na praia Central de Balneário Camboriú.
– Se não tem luz, não tem vida – afirma o pesquisador.
Os problemas não se limitam à areia. A ventilação e a iluminação são prejudicadas pela proximidade dos edifícios. E os gigantes causam um estranho fenômeno, com fortes corredores de vento nas ruas transversais, capazes de derrubar os desavisados em dias de ventania.
Arquiteto e professor da Univali, Carlos Barbosa diz que há elementos positivos nos superprédios. Como o desenvolvimento de novas tecnologias construtivas e o reconhecimento da cidade como referência em fundações de grandes edifícios à beira-mar. No entanto, alerta para o efeito das construções luxuosas e pouco habitadas na dinâmica da cidade:
– São poucos moradores ocupando aquele espaço, o que mata aquela parte da quadra. Em uma das menores cidades de Santa Catarina, fazer isso é matar a galinha dos ovos de ouro. O poder público precisa saber dosar onde quer essas construções – diz.